{"id":313,"date":"2007-02-22T20:44:00","date_gmt":"2007-02-23T01:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/imaginarios.net\/testando\/dpadua\/?p=313"},"modified":"2007-02-22T20:44:00","modified_gmt":"2007-02-23T01:44:00","slug":"a-carta","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/imaginarios.com.br\/dpadua\/?p=313","title":{"rendered":"A carta"},"content":{"rendered":"<p>Havia uma margarida no canto da cama. E uma carta.<br \/>\nPapel laranja, texto em preto, escapando pelas dobras.<br \/>\nO odor indicava que algu\u00e9m havia fodido agora h\u00e1 pouco.<br \/>\nUm espelho. Vi minhas roupas cobertas de p\u00f3.<\/p>\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Caminhei at\u00e9 a cozinha, guiado pelo perfume do caf\u00e9.<br \/>\nAli n\u00e3o tinha nada. S\u00f3 uma mesa. Apenas uma cadeira.<\/p>\n<p>O sol fraco da manh\u00e3 fria embalava tudo em pl\u00e1stico.<\/p>\n<p>Sentei. Abri a carta.<br \/>\nNela dizia &#8220;tens todas as chances&#8221;. Mas quem era eu?<br \/>\nVoltei pro quarto. Minhas pegadas amassando o nada.<\/p>\n<p>Mergulhei no espelho.<br \/>\nO cheiro de caf\u00e9 perdeu-se no abismo.<br \/>\nDo corpo rasgado rios vermelhos pintaram o c\u00e9u de mim.<br \/>\nCardumes dan\u00e7avam enquanto a languidez tirava o pl\u00e1stico<br \/>\nda realidade. Sereias nuas me observaram, enquanto tran\u00e7avam<br \/>\na barba de um ser gigantesco, que n\u00e3o ousei olhar. Montanha-russa.<br \/>\nVento no rosto. Como a \u00e1guia em seu mergulho ca\u00e7ador,<br \/>\nou o metr\u00f4 de Sampa, impetuoso. Estatelei morto no fundo de algum oceano.<\/p>\n<p>Vi voc\u00ea. Pele f\u00e9rtil. Brotavam do\u00e7uras e cores da sua alma.<br \/>\nE eu ali, como um rei. Crian\u00e7as imitavam meu andar. Voc\u00ea<br \/>\nbailava o ambiente, sorrindo. Tudo se movia levemente.<br \/>\nUma chave emergiu entre algas. Brilhava tanto que estrelas<br \/>\nsublimaram, r\u00f3seas, ao seu redor. Soube que era nossa.<\/p>\n<p>Nas minhas m\u00e3os, enrijeceu, procurando sua vol\u00fapia.<br \/>\nO est\u00f4mago retorcendo. Todas as vassalas cantando sussurros.<br \/>\nPernas macias, como ra\u00edzes de seda. Sua caixa de pandora<br \/>\nde encaixe perfeito. A m\u00e3o ali, recolhendo o mel dos teus favos.<\/p>\n<p>&#8220;Beba&#8221; &#8211; aben\u00e7oou a sereia-m\u00e3e.<\/p>\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Tatear com a l\u00edngua toda uma beleza ancestral, perdida<br \/>\nnas runas do seu mist\u00e9rio. Chorei. Engoli. E voc\u00ea, entreaberta<br \/>\nna perdi\u00e7\u00e3o, esperando um pr\u00edncipe feito do meu, do teu c\u00e9u.<\/p>\n<p>Francisco \u00e9 sua pr\u00f3pria casa, enfeitada com margaridas.<br \/>\nLembra a m\u00e3e. Lembra a montanha.<br \/>\nCheira a caf\u00e9 em manh\u00e3 fria.<\/p>\n<p>O vento ainda solu\u00e7a o amor que o espelho refletiu continuamente, secretamente distra\u00eddo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Havia uma margarida no canto da cama. E uma carta. Papel laranja, texto em preto, escapando pelas dobras. O odor indicava que algu\u00e9m havia fodido agora h\u00e1 pouco. Um espelho. Vi minhas roupas cobertas de p\u00f3. Sil\u00eancio. Caminhei at\u00e9 a cozinha, guiado pelo perfume do caf\u00e9. Ali n\u00e3o tinha nada. S\u00f3 uma mesa. Apenas uma [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-313","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-feiticos"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/imaginarios.com.br\/dpadua\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/313","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/imaginarios.com.br\/dpadua\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/imaginarios.com.br\/dpadua\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/imaginarios.com.br\/dpadua\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/imaginarios.com.br\/dpadua\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=313"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/imaginarios.com.br\/dpadua\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/313\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/imaginarios.com.br\/dpadua\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=313"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/imaginarios.com.br\/dpadua\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=313"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/imaginarios.com.br\/dpadua\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=313"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}